14/02/2020 - Por que ainda existe um estigma nos meninos que dançam?


O que há nos homens de meia-calça que fazem as pessoas reagirem de forma tão preconceituosa?

Os homens são ridicularizados e humilhados por escolherem dançar, principalmente no balé. Os meninos são intimidados e bastante estereotipados, muitas vezes com acusações hostis.

Joseph Carmen, bailarino e ex-solista da ABT e do Joffrey Ballet, conta um pouco a sua vivência enquanto homem que decidiu ser um profissional da dança.

“Lembro-me claramente de colegas de classe e até de membros da minha própria família que me chamavam de mariquinha por estudar balé nas décadas de 1960 e 1970. O que me aterrorizava era a maneira com que eles já afirmavam a minha orientação sexual, enquanto eu nem pensava sobre isso.  Eu só queria dançar.

Pode parecer, atualmente, que as coisas tem melhorado nesse sentido, mas muitos meninos ainda enfrentam esses problemas.

Isso é realmente apenas um sonho para as mulheres?

Infelizmente, o fator da grande exposição na mídia aliado a discurso de “aceitação” parece mascarar a situação de intolerância que muitas vezes os homens sofrem na dança. A falta de entendimento sobre a dança continua a conduzir as reações homofóbicas de valentões e intolerantes. “

Dados registrados por Doug Risner, professor de dança na Wayne State University, em Detroit, mostram que apenas 32% dos dançarinos do sexo masculino têm pais que apóiam seu desejo de dançar. Normalmente, os pais apoiam apenas que seus filhos sejam atléticos no campo esportivo. Adicionar música e técnica de balé, sapateado, movimento contemporâneo ou passos de jazz - já torna tudo mais difícil, no campo da aceitação e apoio.

Grande parte dessa atitude venenosa nasce da misoginia - atualmente permeando a política e a sociedade - e a noção de que a pior coisa que um homem pode fazer é representar o que é percebido como um comportamento exclusivamente feminino.

Além disso, o medo de algo diferente da norma cultural acrescenta uma mancha xenofóbica à opinião pública. Provavelmente não ajuda que o vocabulário do balé seja francês (muito “froufrou”, delicado) ou que seja considerado uma forma de arte russa (muito subversiva - talvez até comunista!).

Ainda observa-se também o estigma em torno do artista, do significado de ocupar esse “cargo”. O veredicto geralmente é: Artistas = anormal, desviante, perverso.

Ainda assim, espero que a consciência esteja mudando. A geração do milênio e a geração Z mostram muito mais tolerância a definições flexíveis de gênero. De acordo com um estudo do The Intelligence Group, uma instituição de pesquisa de consumidores, mais de dois terços dos entrevistados com idades entre 14 e 34 anos dizem que o gênero não determina o comportamento ou as aspirações da vida como antes.

Também estou animado em ver melhores programas para meninos em escolas de ballet em todo mundo, que permitem que os meninos vejam e se relacionem mais com outros meninos durante os treinos e apresentações, para que não se sintam tão isolados em suas ambições. Essas oportunidades também dão aos jovens a chance de discutir bullying e provocações e descobrir maneiras de neutralizar ataques verbais e físicos.

Sufocar impulsos criativos pode matar o espírito. Tive a sorte de sobreviver ao abuso e à ignorância que atrapalharam outros jovens. Não quero ver isso acontecer com mais ninguém.

Fonte:dancemagazine.com

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