17/07/2020 - Nelson Triunfo - O pai do Break no Brasil


Nelsinho, Aranha, Black Bahia, Break são alguns dos muitos apelidos que Nelson Gonçalves Campos Filho, o famoso Nelson Triunfo! 

Cresceu em Triunfo, município do sertão pernambucano, passou pelos bailes da Chic Show, no Palmeiras, entre as décadas de 70 e 80! Mudou-se para São Paulo em 1977, com o sonho de viver da dança

Pioneiros nos projetos que utilizam o hip-hop como um instrumento de educação e inserção social, através de oficinas, palestras, debates e outras atividades com crianças e adolescentes, trabalho que desenvolve até hoje. Fruto desta iniciativa, Nelson Triunfo foi um dos responsáveis pelo surgimento, em 1999, da Casa do Hip-Hop de Diadema, projeto em que está envolvido até hoje.


"Nos anos 70 tinha um movimento muito forte chamado Black Rio, com bailes de soul funk. Desses grandes bailes, saiam ótimos dançarinos. Em 79, a Sugar Hill Gang lançou "Rapper's Delight" e isso mudou completamente o jogo. Nessa época eu já fazia parte da Funk & Cia. O grupo foi se atualizando de acordo com os movimentos e da música black do Brasil. Nós fomos a primeira crew de dança a ir para as ruas", conta Nelson.

Em mais de 40 anos de trajetória, Triunfo já dançou com Tim Maia, Tony Tornado, Sandra de Sá, foi condecorado por James Brown, fez peças de teatro, participações em filmes nacionais como “A Marvada Carne” (1984) e “Uma Onda no Ar” (2002) e participou da abertura da novela "Partido Alto" (1984). Toda essa história está contada em sua biografia, "Nelson Triunfo - Do Sertão ao Hip-Hop", e no documentário "Triunfo", ambos lançados em 2014.

Mudou-se para São Paulo em 1977, com o sonho de viver da dança. Naquele ano ele fez amizade com Tony Tornado, gravou uma música com Miguel de Deus no álbum “Black Soul Brothers” (uma das gravações originais do funk brasileiro) e formou uma equipe de dança chamada Funk & Cia. Rapidamente, tornou-se destaque nos principais shows e bailes black.

Em 1978, o grupo incorporou em seu repertório a dança do robô, onde faziam passos robotizados, inspirados pelo grupo de dança Electric Boogie. "Fomos apresentar a dança do robô no programa do Silvio Santos e ganhamos nota máxima dos jurados", relembra Nelson. Entre 1979 e 1980, começou a surgir outro passo de dança entre os dançarinos, o locking. "Nessa época fazíamos vários movimentos que mais tarde foram incorporados dentro do breaking. Incorporamos na nossa apresentação também uma dança que chamamos de Americano, que incorporava alguns passos de locking".

Foi então que Nelson viu na TV uma reportagem que mostrava alguns caras no Bronx dançando no chão, fazendo uma rotação apenas com a cabeça no chão, que mais tarde ficou conhecido como o headspin. "Quando eu vi aquilo, achei que era algum efeito de câmera", conta.

Em 1982, na época dos bailes black, Nelson começou a frequentar uma discoteca chamada Fantasy, onde os DJs tocavam as músicas de funk e soul mais quentes do momento. "Descobrimos lá vários caras que estavam fazendo alguns passos de dança diferentes, deslizando pra trás, fazendo um sapateado. Passos que mais tarde entraram nas danças de rua". Foi o início de 1983, quando eu tava com uma equipe com dançarinos especialistas em vários tipos de dança, que eu resolvi levar a dança pras ruas. Nessa época nós não tínhamos um lugar definido pra dançar. A gente ia na Praça da Sé, na frente do Teatro Municipal, e colocavamos caixas de papelão no chão pra facilitar a execução dos passos, porque o chão não era muito bom".

Naquela época a repressão era muito grande e a polícia impedia as pessoas de dançar, levando pra cadeia quem estivesse dançando pelas ruas. "Provavelmente eu sou o cara que mais foi preso no centro de São Paulo [risos]. Tinha até uma delegacia do Baixo Augusta onde um PM que me conhecia e gostava de mim me liberava toda vez que eu chegava lá. Em outras delegacias eu não tinha essa sorte. Tinha que esperar uns 3 dias para poder sair", relembra.

Com o tempo, sua equipe de dança transformou o centro de São Paulo em um templo do surgimento da cultura hip-hop em São Paulo, e ele se tornou uma força na cultura de rua do Brasil. "Depois fomos dançar na esquina da 24 de Maio com a Dom José de Barros, porque o ali o chão era liso, o que facilitava pra gente dançar. Ali é o marco zero do hip-hop nacional. A estação São Bento do metrô virou nosso point somente em 1985".

Em 1983, o Funk & Cia participa do clipe da música Funk-se Quem Puder, de Gilberto Gil. Em 1984, da abertura da novela Partido Alto, da rede globo. E assim a cultura começa a ecoar cada vez mais. "Essa é a prova de que nós estávamos lá desde o começo", conta.

Em 1985 já tinha haviam várias crews de dança formadas. A São Bento cresceu e virou um grande ponto de encontro. Em 1986, o local vive seu auge. "Muita gente que hoje em dia é famosa começou sua trajetória lá. O Thaíde começou como B-Boy da Backspin Crew antes de ir pra música, o KL Jay, Os Gêmeos, o Mano Brown... todo mundo colava lá".

Lembrando que tudo isso aconteceu em plena ditadura militar. "Nada foi fácil. Quando a ditadura acabou, em 1985, ficaram muitas dúvidas, muitos medos. Foi aí que eu comecei a trabalhar os projetos sociais. Eu vim muito de um movimento de militância, de resistência, então sempre prestei atenção em causas sociais". Nelson foi um dos pioneiros nos projetos que utilizam o hip-hop como um instrumento de educação e inserção social, através de oficinas, palestras, debates e outras atividades com crianças e adolescentes. Fruto desta iniciativa, Nelson criou em 1999, da Casa do Hip-Hop de Diadema. "Essa foi uma das maiores conquistas da minha vida".

Além da dança, Nelson também trabalhava com música. "Eu já fazia música naquela época. Só que eu tinha o sotaque nordestino muito forte, então todos tinham muito preconceito comigo, pelo sotaque, cabelo, roupa, por tudo. Teve até uma vez que eu fui dançar num programa de TV e o produtor pediu pra eu nao falar, apenas dançar. Até pensei que era porque eles queriam fingir que eu era gringo - naquela época tinha muito essa coisa de vender artistas brasileiros como se fossem gringos né, pra fazer sucesso - então na minha inocência eu só fui lá e dancei. Depois descobri que ele não queria que eu falasse por causa do meu sotaque. Foi difícil, nós tivemos que quebrar muitos preconceitos".

Ao longo dos anos, a cultura começa a se espalhar e expandir. Em 1993 aconteceu o primeiro campeonato nacional de B-Boys. "Foi aí que a São Bento estourou mesmo, ficou famosa mundo afora". O resto, é história.

Sobre a diferença daquela época para os dias atuais, Nelson completa: "Naquela época a repressão era muito pesada, éramos vistos como marginais. Hoje, somos olhados com outros olhos, como profissionais. Ninguém diria que alguém que foi preso diversas vezes ganharia o Título de Cidadão Paulistano pela Câmara Municipal de São Paulo. Eu tô aqui pra provar isso. Tudo isso é uma semente que plantamos há anos atrás e agora estamos colhendo os frutos".

Fonte: www.redbull.com/


 

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