02/10/2020 - A dança como experiência ancestral: a atuação do Afrofunk Rio na descolonização do corpo


Fundado em 2014 por Taisa Machado, o projeto surgiu de maneira “muito despretensiosa”, como comentou a idealizadora em entrevista ao Notícia Preta. Taisa estudava teatro e dança Afro e, em um momento de dificuldade financeira, decidiu concretizar todo o seu conhecimento adquirido de maneira autodidata em uma oficina de dança. “Nunca pensei que fosse fazer isso durante muito tempo”, disse. Na época, a primeira aula foi divulgada no Facebook e contou com 35 pessoas. Durante esses anos de atuação, o Afrofunk já teve a sua marca exposta em encontros, festas e produtos audiovisuais, além das oficinas de dança que já passaram por diferentes lugares.

Taísa Machado, fundadora do Afrofunk Rio. Foto: arquivo pessoal.

Essas oficinas são espaços de treinamento das habilidades do quadril baseado em antigos saberes das mulheres negras. É onde os movimentos se conectam com as histórias dos ancestrais e ativam a potencialidade das mulheres por meio da educação sexual ao possibilitar maior conhecimento corporal em relação a libido e aos aspectos da afetividade. 

O Afrofunk Rio visualiza a dança sem as marcas do racismo ao trazer uma perspectiva do tema a partir de um olhar afrocentrado, combatendo a objetificação e a hipersexualização do corpo da mulher, em especial, da mulher negra. “A dança é uma plataforma ancestral de manutenção da nossa liberdade”, afirmou Taisa. De acordo com ela, mulheres negras que historicamente vivenciam o retrato da desigualdade mantiveram a tradição de movimentarem os seus corpos em direção a uma sexualidade saudável, o que revela uma resposta de resistência às violências impostas a esse segmento da população.

Oficina do Afrofunk realizada em janeiro deste ano. Foto: Arquivo pessoal.

Mulheres que procuram as oficinas chegam com o mesmo propósito: se sentir livre para dançar. No entanto, ao falar sobre os principais motivos dessa busca por mulheres negras e brancas, Taisa chama a atenção para algumas diferenças. As mulheres brancas geralmente possuem o desejo de atravessar algumas barreiras culturais construídas pelo próprio racismo que criminaliza estilos musicais, culturas e danças do povo negro, além de buscarem por uma “despudorização” que possibilita a quebra de tabus sobre os seus corpos. Taisa relembra que essas mulheres normalmente são criadas em ambientes muito rígidos, inclusive religiosamente.

 Já as mulheres negras vão para as oficinas para se livrar do trauma da hipersexualização e da objetificação. “São muitas meninas que ao final do treino me contam que quando eram crianças gostavam muito de dançar, mas eram observadas por homens que as deixavam desconfortáveis. Ou que falam que têm vergonha de dançar por causa do seu corpo que pode chamar muito a atenção”, contou. 

Um estudo publicado este ano pela Universidade Federal da Paraíba demonstrou que as mulheres negras e as contra normativas – que não seguem as regras ditadas pelo senso comum- são as mais culpabilizadas por violência sexual. A pesquisa aponta ainda que a atitude de culpabilizar a vítima se baseia em crenças sexistas, racistas e valores patriarcais que têm o papel de justificar e legitimar esse tipo de violência. 

É no enfrentamento a essa realidade de violências simbólicas e escancaradas que o Afrofunk Rio utiliza a dança para a conquista e manutenção do prazer, da liberdade e da autonomia dos corpos femininos a partir de um processo de descolonização, considerando a particularidade de cada mulher através do recorte de raça e classe. Para Taisa, esses movimentos corporais são a prevenção e também o tratamento. Hoje, devido à pandemia de coronavírus, os encontros estão acontecendo de forma completamente online, atingindo centenas de pessoas. As informações para as inscrições nas oficinas podem ser encontradas no Instagram do projeto.

Fonte: https://noticiapreta.com.br/a-danca-como-experiencia-ancestral-a-atuacao-do-afrofunk-rio-na-descolonizacao-do-corpo/

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