07/10/2020 - Festival Arte como Respiro - Cênicas traz circo, dança, teatro e performance


Reunindo 18 projetos de 10 diferentes estados, a programação exibe apresentações feitas durante o período da quarentena e registros anteriores do período, que usam diferentes linguagens para refletir sobre assuntos ligados a questões de gênero, corpo e psicológicas, como a solidão. O isolamento também segue como uma das temáticas mais abordadas, e está em espetáculos como Luta, da atriz mineira Teuda Bara, e Gente de Classe – Transparente, do Grupo Carmin, do Rio Grande do Norte

De 7 a 11 de outubro (quarta-feira a domingo), o Itaú Cultural realiza mais uma programação do Festival Arte como Respiro – Edição Cênicas. Neste novo recorte, a grade traz todos os espetáculos voltados para o público adulto, uma vez que todas as atividades para os pequenos integram as ações especiais que o instituto realiza separadamente em comemoração, durante mês, ao Dia das Crianças.

Neste primeiro bloco de outubro, o público acompanha, sempre às 20h, 18 espetáculos de dança, teatro, performance e  circo, com artistas da Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo, selecionados em Arte como respiro: múltiplos editais de emergência realizado pelo Itaú Cultural para apoiar os artistas no período de suspensão social. Todos ficam disponíveis no site da instituição (www.itaucultural.org.br) por 24 horas para serem assistidos virtualmente (segue anexado todo o serviço da programação).

Esta edição abre no dia 7 (quarta-feira), com uma programação dominada pela dança, a performance e a presença da linguagem circense. Este é o caso de Rede de Pulgas, das artistas cearenses Gabriela Jardim e Lívia Soares, que partem do circo tradicional para mostrar, como as artistas autônomas estão revivendo e recriando composições cênicas no espaço recortado do isolamento, a casa. O lugar de morar é também o ponto central do quadro de dança Menina em Casa, da carioca Amanda Gouveia. Identificando-se como uma mulher autônoma que aproveita sua privilegiada quarentena para se reinventar dia a dia, ela usa, como diz, a leveza de sua menina interior e a ousadia nos detalhes para abraçar um novo amigo, o autocuidado.

Drica Rocha, da Bahia, por sua vez, conduz a performance Entre o Fechar e o Abrir dos Olhos. Nela, a artista e arte-educadora parte da poesia, do olhar e da janela para fazer um desabafo do corpo preso no isolamento social e assim encontrar, entre ruínas, formas de transformação a partir da movimentação das suas edificações internas. A noite fecha com o espetáculo Mulher do Fim do Mundo: Manutenção e Criação em Cena, da Cia Nau de Ícaros, de São Paulo. Inspirado pela música homônima de Elza Soares, a apresentação busca encontrar na relação entre arte e cotidiano as camadas subjetivas do universo feminino, em especial no que diz respeito ao assolamento de atividades e tarefas da mulher contemporânea.

 Diversidade

Na quinta-feira, dia 8, as questões de gênero costuram as exibições do festival, a partir da abertura com Esmea, dos paulistas Leonardo Cuspamos e Lucas Andrade. Nele, os personagens F e C viveram um grande amor, mas após o fim do romance F ficou em total estado de solidão, relendo escritos e relembrando os momentos que viveu com C. Por sua vez, a cena teatral Filho Homem, do carioca Bernardo de Assis, aborda as diferenças e proximidades entre dois irmãos: um criado para ser homem e outro criado para ser mulher.

Em #ressignifiCASA – Cozinha, o multiartista Murilo Toledo, também de São Paulo, faz uso da dança, acrobacia e interpretação para tratar das emoções em meio a um processo de término, logo na chegada da quarentena, de um casamento homoafetivo marcado por padrões heterocisnormativos – o vídeo integra uma série de três produções, e as outras duas partes serão exibidas no perfil do Instagram do artista (@murilotoledo). A temática permanece em Cruz Credo, do Coletivo Emaranhado, do Espírito Santo, que trata das retaliações sofridas pelo corpo-vivência de um humano negro, cisgênero e gay em espaços sociais nos quais esteve inserido em sua adolescência: família, escola, igreja e trabalho.

A noite conta, ainda, com o espetáculo O Hétero, do Rio de Janeiro. Neste monólogo bem humorado, o personagem Fulano de Tal, vivido por Zé Wendell, é um nordestino, artista, homem comum, que sai em uma jornada de autoconhecimento e aceitação de si, trazendo, junto, a pluralidade da cultura popular e flertando com a cultura do repente, do cordel e das influências midiáticas da televisão na década de 1990 até os dias de hoje.

Corpo e mente

A sexta-feira, dia 9, é capitaneada por produções que mergulham na linguagem circense para abordar desde questões ligadas a padrões físicos até traços psicológicos que se escondem por trás de personagens que camuflam seus sentimentos.

O palhaço, ator e bailarino paulista André Doriana abre a programação com Chàrlá Táon – O Contorcionista. Nele, o palhaço faquir Chàrlá “co(n)vid(a)-19” a descobrir qual a cor, a textura e o movimento das transformações que a pandemia tem provocado no mundo, ensinando um antídoto milenar contra a dor: o riso. O Melhor Trapezista de Todo o Mundo, da gaúcha Cia Fundo Mundo, faz uma sátira aos números clássicos de acrobacia aérea, em que acrobatas magros, fortes e cisgêneros demonstram uma confiança exorbitante. Aqui, no entanto, um personagem excêntrico, que se autointitula o melhor trapezista de todos os tempos, tenta manter a pose quando as coisas não saem exatamente como planejado.

O solo Pontos de Vista de Um Palhaço fecha a programação do dia, colocando o ator Daniel Warren, de São Paulo, na pele de um palhaço que busca ajuda em uma sessão de terapia online. Adaptação teatral para o vídeo do romance homônimo do alemão Heinrich Boll, ela parte da relação descontraída com o público para refletir sobre as máscaras sociais, desnudando aspectos ora dramáticos ora absurdos neste retrato profundo da natureza humana.

Novos formatos

As apresentações do sábado (dia 10) no Festival Arte como Respiro – Edição Cênicas reúnem projetos pensados e criados a partir do momento atual de quarentena, levando para o digital novos formatos e reflexões deste período.

A noite abre com Um Passinho de Cada Vez, de Marzia Zambianchi e Olivia Orthof, do Distrito Federal. Realizada durante a suspenão social por alunos circenses, a videodança parte da dança carioca do passinho para estimular a criatividade neste período em que um tempo ocioso foi brutalmente injetado em muitas rotinas.

A vida digital potencializada no isolamento também guia Gente de Classe: Transparentes, apresentado pelo Grupo Carmin, do Rio Grande do Norte. Trecho cômico de futura peça da companhia, a cena se passa em um condomínio de classe média, onde uma mãe solteira e seus dois filhos se falam apenas por videoconferência, ainda que estejam na mesma casa. Vendo a família como um negócio, a mãe promove uma live para evitar a falência desta empresa.

Luta Live, que a atriz mineira Teuda Bara apresenta fechando a noite, é um projeto audiovisual desenvolvido a partir do espetáculo Luta, baseado em memórias e particularidades da artista. Em cena, Teuda, uma das fundadoras do grupo Galpão, ficcionaliza sua trajetória, cria imagens, conta casos e elege a luta como alegoria para o teatro e a própria vida. Na atualidade, a luta continua, mesmo que à distância.

Relações

O primeiro bloco de outubro da edição Cênicas do Festival Arte como Respiro em outubro termina no domingo, dia 11, projetos levam à cena reflexões sobre as relações criadas pelo indivíduo consigo, com o mundo e com os outros para o site do Itaú Cultural

O paulista Toque de Quarentena traz o registrou em vídeo de uma cena performática do casal Livia Vilela e Cezar Siqueira realizada durante o período atual, que expressa, por meio do movimento, a experiência do isolamento e seus efeitos nos corpos. Este jogo físico, que alterna distanciamentos e aproximações, metaforiza a cena social no chão de casa da dupla, fazendo, ainda, da sobreposição de imagens de seus próprios corpos um efeito multiplicador que propicia a única aglomeração possível no atual cenário.

Também híbrida, a cena gravada em casa O Mundo Está ao Contrário e Ninguém Reparou, de Camila Cequinel, do Paraná, chama a atenção para a ideia de que às vezes inverter uma situação e ver as coisas de outro ponto de vista é a solução para os problemas. Nesse caminho, a artista adapta seu trabalho para a atualidade e reinventa a comunicação da arte por meio do audiovisual, sem perder a vivacidade e poesia do circo.

O espetáculo final é Maré, do Coletivo CIDA, do Rio Grande do Norte. Criada em 2017, pensada inicialmente como um dueto, esta peça coreográfica assume uma nova formatação em versão compartilhada, em uma alusão às formas como abordamos e estereotipamos a natureza híbrida desse modo de se relacionar. Assim, cria uma metáfora sobre a modificação, os níveis, as intensidades e profundidades desse sentimento tão complexo: o amor.

Outros selecionados

Além de dois blocos da edição Cênicas – o primeiro do dia 7 ao 11 e o segundo de 21 a 25 –, a programação do festival traz, também com outros recortes dos selecionados na série de editais, estes direcionados para trabalhos musicais, com a exibição de shows de 14 a 18 e dos dias 28 de outubro a 1 de novembro; poesia surda, com apresentações temáticas aos sábados, dias 10, 17, 24 e 31; e artes visuais, cuja quarta e última mostra em formato audiovisual do primeiro bloco sobe a partir do dia 7 de outubro no site do Itaú Cultural, onde fica disponível para ser conferida por um mês, assim como as demais.

Foto destaque: Mulher do Fim do Mundo. Foto: Ale Catan/Divulgação

SERVIÇO
Festival Arte como Respiro – Edição Cênicas
Data: 
7 a 11 de outubro (quarta-feira a domingo)
Horário: sempreas 20h
Local: No site do Itaú Cultural: www.itaucultural.org.br

Itaú Cultural
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