31/03/2021 - Videodança Serafina, do Núcleo BPI


Nas águas do rio e nas águas do mar navega um corpo-barco chamado Serafina. Em meio a essa imensidão, num tempo que atravessa diferentes épocas, Serafina mistura-se às águas mansas e volumosas, emerge e submerge, e navega… de lá pra cá… de cá pra lá. Muita gente vem com ela nesse barco, do plano visível e do invisível

Alegoria do imaginário paraense, o videodança Serafina começou a ser criado em fevereiro de 2020. Foi nesse período que o grupo, formado pela bailarina Larissa Turtelli, a diretora Graziela Rodrigues, o músico José Augusto Mannis e a produtora Mariana Floriano,passou quinze dias na região de Santarém, no Pará, onde fez diversas pesquisas de campo. O fruto destas pesquisas, que a princípio resultariam em um solo para ser apresentado ao vivo, tornou-se o videodança Serafina, com temporada online veiculada a partir do dia 4 de abril, domingo, às 19h. As ações são resultantes do projeto Do Tornar Visível: Encantarias, aprovado no edital nº 03/2019 – Produção e Temporada de Espetáculos Inéditos de Dança no Estado de São Paulo do Programa de Ação Cultural (ProAC).

O trabalho foi criado dentro do método Bailarino-Pesquisador-Intérprete (BPI), um processo de pesquisa, de criação e de ensino em dança desenvolvido por Graziela Rodrigues a partir de 1980 e em constante atualização pela sua criadora e por outros artistas que formam o Núcleo BPI. O foco das pesquisas de campo foi as buscas pelas histórias e corporificações dos encantados que habitam as águas e florestas e que se manifestam de diferentes maneiras. Existem, por exemplo, aqueles que aparecem nos terreiros de tambor de mina e aqueles que são guardiões de determinados locais da natureza, como uma ponta de areia, um igarapé ou uma parte da floresta.

Após a viagem e poucas semanas de laboratórios de criação, os encontros presenciais entre Larissa e Graziela foram suspensos devido ao início da pandemia do Covid-19. Quando retomados, em um primeiro momento, os trabalhos passaram a acontecer no quintal da casa de Larissa, por meio de chamadas de vídeo entre as duas artistas. Depois foi montada uma estrutura cênica na casa da bailarina para que os testes de captação de imagens pudessem acontecer.

Assim, o trabalho foi erguido gradativamente em laboratórios de criação com a diretora depurando os vários corpos que a bailarina expressava. Esses corpos tinham uma ligação intrínseca com as experiências das pesquisas de campo, mas não eram cópias nem releituras de nenhuma pessoa encontrada lá, eram uma criação.

“A personagem Serafina permite que a gente veja um plano sutil que expressa a força do coletivo, a ligação com a natureza e uma luta incessante para sobreviver, com capacidade de acolhimento e de festa, mesmo diante de dificuldades”, conta Larissa.

PESQUISA

Criado de acordo com a metodologia BPI (Bailarino-Pesquisador-Intérprete), a obra é resultado de uma pesquisa profunda, na qual a diretora conduziu os trabalhos de modo a trazer à tona as conexões que se estabeleceram internamente na intérprete com aquilo que foi vivido em campo. “O método BPI propicia uma abertura sensível, uma empatia, a capacidade da gente entrar em um campo emocional que vai além da nossa individualidade – aos poucos algumas emoções e imagens que estavam inconscientes, vão se tornando conscientes e se revelando no movimento”, diz Larissa.

A partir destes intensos ensaios, Graziela e Larissa criaram o roteiro do trabalho, que traz os vários corpos e estados de corpo de Serafina, como o barco largo e o vazio, a saga de criar novos corpos a partir daquilo que restou, o canto, a dança e a festa, assim como a luta e as forças femininas que vêm dos primórdios e continuam nos dias de hoje.

Entre os elementos cênicos trazidos pelo corpo, estão a água, o fogo e a mata, que ganham um novo efeito e tessitura quando mostrados por meio da câmera que capta a cena a partir de vários ângulos e proximidades. Quem realizou a captação das imagens foi a artista da dança Karina Almeida. Há também figurinos criados pelo cenógrafo e figurinista Márcio Tadeu que representam os diferentes corpos de Serafina, como uma saia que ondula como as águas e tecidos que lembram corpos queimados, mas que quando amarrados trazem um lado festivo e ritualístico da personagem. Serafina é um espetáculo que se remete a sabedorias ancestrais, a forças de resistência, a corpos em comunhão com o meio ambiente, a tornar visível aquilo que está invisível, é uma ode à convergência que gera uma nova força.

Em Serafina a dança vem não só como movimento, mas como conteúdo emocional, em um lugar e em uma situação. Na dança é concretizado algo que nunca se deixa extinguir, que sempre ressurge de alguma maneira. Serafina é também sobre os restos que quando unificados formam um novo corpo.

A trilha sonora é assinada pelo músico José Augusto Mannis, compositor e Professor Titular do Instituto de Artes da Unicamp, que também participou das pesquisas de campo em Santarém, e do músico Gustavo Sales Rocha Santos, bacharel em música pela Unicamp na modalidade composição. A iluminação foi criada e efetivada por Francisco Barganian, iluminador que desenvolveu muitos trabalhos com o LUME Teatro e agora trabalha na empresa Zumbido Cultural. A produção é de Mariana Floriano, que também é bailarina e pesquisadora no método BPI.

ACESSIBILIDADE

A bailarina, a diretora e a produtora de Serafinatambém quiseram proporcionar uma experiência desta obra para as pessoas com deficiências visuais e auditivas, de modo que o videodança contou com a participação de Bell Machado para desenvolver sua audiodescrição e de Samuel Rodrigues para fazer a interpretação das falas, dos cantos e das narrações em libras. Esta é a primeira experiência do Núcleo BPI em busca de chegar até esses públicos. A versão com acessibilidade será veiculada a partir do dia 5 de abril, segunda-feira, às 19h.

OFICINAS E BATE-PAPOS COM A ARTISTA

Também estão agendadas para a temporada de Serafina uma série de bate-papos sobre o processo de criação da peça (com tradução simultânea em Libras) e oficinas de dança no Zoom em parceria com o Teatro Flávio Império, de São Paulo, e com o Teatro Popular de Comédia, de Ribeirão Preto.

Bate-papo/Lives com Larissa Turtelli
Terças, às 19h

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