22/05/2017 - João Saldanha, a coreografia e muito mais


Nosso entrevistado é um dos maiores nomes da dança contemporânea no país, mesmo não se sentindo como o tal. João Saldanha contou para a equipe do #ClickOnDance um pouco da sua jornada como bailarino e coreógrafo, como foi perder seu companheiro de trabalho e de vida e muito mais! Confira!

ClickOnDance: Você é um dos expoentes da dança contemporânea no país. Quando você percebeu que seria um coreógrafo e quais as principais barreiras que você teve que quebrar para hoje ser João Saldanha?

João Saldanha: Nossa, agora é reviver o passado! (risos) Eu acho essa coisa de grandes expoentes complicado, mas tudo bem, dizem isso. Minha trajetória como bailarino foi dura, muito dura, como de todo bailarino. Porque, primeiro eu tinha que mentir pra ir fazer aula, porque meu pai era de outro universo, universo do esporte, um ícone machista da historia do futebol, então eu mentia. Falava que ia pra um lugar e ia fazer a aula de dança(risos). Quando eu morava fora do Brasil era mais fácil. Eu mentia porque toda a minha vocação parece que ela já veio muito determinante, desde pequeno. Desde pequeno eu já sabia que eu queria fazer o que eu faço e eu sempre me meti muito nas perspectivas dos coreógrafos, eu sempre dava pitaco e alguns até acatavam algumas coisas. Tive muitos conflitos com os outros criadores porque eu não estava muito de acordo com as escolhas deles. Um saco né, pessoa chata! (risos) Foi quando eu decidi começar a fazer meu próprio trabalho e não viver essa angustia de ficar dando pitaco, interferindo no processo de outros criadores. Mas essas coisas mudaram, essa coisa de dar pitaco em tudo, eu acho que minha perspectiva em relação a arte, artista, interprete, criador, tá muito mais horizontal hoje em dia. Na verdade eu acho chato essa posição vertical, acho pouco artística, acho que limita demais a possibilidade artística e criativa. Agora, o grau de entendimento que se pode ter disso é vasto. A gente tem habilidade de imitar, a gente é uma repetição constante de tudo aquilo que é visto, vivenciado, selecionado pelos afetos ou pelo achismo mesmo. Existem alguns criadores que são realmente criadores, autorais, dispõem de uma linguagem para desenvolver. Esses são raros. E existem os criadores que são influenciados por diversas linguagens e usufruem desses “memes” que não decorrentes daquilo que eles vivenciaram e escolheram. O mundo está cada vez mais veloz, mais tecnológico. Nossas ansiedades são supridas, de alguma forma, nesses “devices” mas não nas nossas emoções, porque sempre falta alguma coisa. A busca pelo novo, quem é que vai trazer? Aí tive um pensamento outro dia que me deu uma tristeza profunda “Eu acho que a gente em algum lugar tá melhorando, as pessoas tem mais noção de um bem estar, de como se produz esse bem estar, alimentação. As referencias tão aí, a gente já sabe quem algumas coisas somadas explodem e outras beneficiam uma melhor vida, uma vida mais prolífera, mais digna apesar da crueldade humana. Isso tudo tem a ver com movimento, coreografia, então eu fico pensando como uma pessoa como Pina Bausch poderia estar produzindo e se ela, nessa sabedoria adquirida ao longo da sua própria existência, estaria simplificando suas expressões sobre alguns aspectos.

Eu tenho a impressão que na arte viva, seja ela qual for, pode-se produzir uma coisa de verdade. Uma expressão real, concreta, tátil, mais expressiva do que nossas ações diárias. A gente tá muito engessado na vida, cheio de formulas. Talvez nesse espaço eu posso ser integralmente humano e trazer os códigos necessários pra acessar essa ideia de ser humano. Tenho tido essa sensação.

COD: A arte é transformadora então?

JS: A arte sempre foi e sempre será transformadora. Mas isso que é o perigo, estamos falando de uma manifestação artística, a arte, e aí a gente tem que pensar o que é a arte. Por exemplo, semana passada eu fui ver um monologo com uma atriz que eu admiro muito. Eu saí de lá num estado de comoção, aquilo foi me tomando de tantas formas que saí de lá tendo que conter as minhas emoções, porque eu sentia vontade de gritar, de chorar, eu soluçava. Eu tive que medir minha postura no teatro pra me deixar atravessar por tudo aquilo. E eu tô atravessado até hoje. Então a impressão que eu tenho é que quando você tem um desenvolvimento realmente artístico, em arte viva, em arte cênica, aquilo fica vivo dentro de você e vai produzindo outras coisas.

COD: Em uma entrevista, você disse que é fundamental para nossa formação como seres, termos uma conscientização dos nossos corpos, conhecer nomes dos ossos, trabalho muscular e, para isso, a dança é muito importante. Como você vê essa falta de consciência corporal?

JS: Não é terrível isso? A ideia de uma civilização moderna me parece defasada quando você vê que aos 30 anos de idade, por exemplo, a maior parte das pessoas não sabem onde se localizam os rins, e as vezes sentem alguma coisa nas costas e já acham que é muscular e de repente tem uma retenção renal e não sabe. Enfim, existem muitas formas e técnicas pra gente ter um melhor entendimento funcional da nossa estrutura. E existe o lado intuitivo, tem pessoas que têm mais habilidade com isso, que elas percebem que tem um período que não dá pra comer fruta. O corpo anuncia algumas coisas, depois quando você confirma, cria um mistério “sério?”, e não é, o corpo tem essa habilidade de sintetizar o saber. A dança tem a capacidade de apontar minucias, a gente fica atento, começa a ter leitura de um corpo desconfiado.  

COD: Qual o futuro da dança?

JS: A dança não tem futuro, a dança é presente, estado de presença. Só existe presente. A dança que se projeta num futuro, não me interessa. Eu acho que toda manifestação física, mesmo em termos cênicos responde a um estado presente, de agora. Se você começa a ficar com projeções, se você começa a ficar esperando, vai entender que é algo que já existiu lá atrás. Se você vive o presente, as coisas vão te atravessando, transformando sua maneira de agir, de pensar, de trabalhar. O agora é o melhor lugar pra gente estar.

COD: Em 2014 você perdeu seu grande companheiro de vida e de palcos, Marcelo Braga. Mesmo no luto da perda, você encontrou forças para cumprir uma promessa que havia feito a ele, de subir aos palcos com “Romeu”, escrito por Marcelo enquanto ele lutava contra sua doença. Como foi esse momento na sua vida? Estar em cena, depois de um bom tempo atuando fora dos holofotes, foi importante para superar a perda de um companheiro de mais de 25 anos?

JS: Foi uma experiência tão difícil, muito louco. Eu estava desde 2008 fora dos palcos. Eu resolvi fazer Romeu porque acima de tudo tinha um comprometimento com o autor, que era o Marcelo, de vingar aquele projeto dele, então me sentia com uma responsabilidade gigantesca.

Só agora, dois anos e pouco depois é que eu tenho consciência da situação trágica que eu estava vivendo. Enquanto eu a estava vivendo, eu precisava estar ali fazendo as coisas e lutando por aquilo, então não tinha realmente a consciência do tamanho daquela tragédia, tinha que lutar junto por uma sobrevivência.  Não foi simples, foi muito triste, uma morte sofrida, com muita dor.

Ficamos 25 anos vivendo juntos, conheci o Marcelo há quase 30 anos ou mais. É uma situação limite né, teve um momento que eu achei que ia morrer junto. Você ver a deterioração de um corpo, de uma pessoa que sempre se expressou tanto, e com alegria, com capacidade, potência... Marcelo tinha particularidades incríveis e uma forca artística única.

Nos últimos 5 anos de vida, ele fez três trabalhos incluindo Romeu e foram três trabalhos autorais de um criador muito potente, muito singular e com muita coragem, porque se expos daquele jeito. Eu fazer Romeu, de certa forma, foi um jeito de lidar com aquele luto. Tinham momentos dificílimos.

Eu não sei se a gente supera a tragédia, mas ser um artista ajuda no enfrentamento. O artista tem a possibilidade de enfrentar, ele vira um titã. Por exemplo, tenho tido muita dificuldade de vender esse trabalho. Tenho tido muita proposta, mas aí eu me lembro do que é fazer aquilo ali e do que produz em mim. Não é que eu não vá fazer, eu acho que vou fazer ainda, acho que tenho que fazer até como exercício. Eu aprendi muito com esse trabalho, mesmo, como artista, como interprete, como defensor de uma linguagem que não é minha.

COD: Pensando em tudo que está acontecendo no país, qual você acha que é a função dos artistas num momento de crise?

JS: 90% da arte produzida no Brasil, é uma arte de elite. As expressões atuais mais potentes estão na periferia. A dança de rua, o funk tá incrível. Já ouviu Mc Linn da Quebrada? Até o visual dela é incrível! E ali é uma postura política. Como a gente enxerga essas pessoas?

COD: E como você enxerga a elite vendo isso?

JS: Acho que a elite brasileira mesmo, se protege da realidade, um ou outro que dá um pulo ali outro lá pra dar uma conferida, vai até o Circo, mas nunca foi até Madureira, ou um só foi e achou legal, mas só. A elite mesmo não sai dali do Leblon, fica andando em círculos. Não sei te responder isso, mas também não quero um olhar implicante com a elite, só acho que eles desconhecem coisas incríveis que tem aqui. São ignorantes porque ignoram.

Acho que a classe media, o povão, tem mais cultura que a elite e nesses últimos anos, apesar de todos esses pesares, tem uma classe que teve a possibilidade de dizer “eu estou aqui” e que em nenhum outro momento da historia desse país existiu ou deu-se essa oportunidade.

COD: Você vê alguma luz no fim do túnel? E se você vê, são essas artes da periferia que estão levando, aproximando essa luz?

JS: Ah! Aí a gente começa a repetir alguns refrãos “eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz”, você não fala isso? E aí o que a gente pode dizer disso? Isso não ficou restrito ao Chico Buarque de Holanda, existe uma elevação em outras esferas. Quando as pessoas vivem esferas mais simples, mais humildes, elas tão ali a margem, qualquer descuido é fatal. Já tem um instinto de sobrevivência, a gente que é muito privilegiado.

Para encerrar, um pingue-pongue:

Melhor momento na dança? Um vez que eu estava numa aula e a professora reclamou que estava sem sapatilha. Olhei pra ela, fiz um degagê, dei cinco piruetas e terminei num passê e olhei pra ela. Sem sapatilha. E aí a sala inteira começou a gritar e ela me tirou de sala hahahaha.

Melhor momento na vida? Agora. Claro!

Um espetáculo de dança inesquecível que você assistiu?  Um que não tenha participado. Sur La Montagne, em 1987. Inesquecível.

Qual foi o lugar mais incrível onde você trabalhou? Teatro Villa Lobos, Theatro Municipal do RJ.

Uma referência da dança? Dudude Herrmann

Uma decepção que a dança trouxe para você? As vezes a gente se decepciona com as pessoas, os lugares. Mas eu não vivo o reflexo de uma decepção. Claro que eu já fiquei triste, mas eu lembro de cada um que faz parte da minha vida e vejo que não dá pra ficar refém de uma decepção.

Melhor música para dançar? Childish Gambino, Solange, Les Rita Mitsouko

O que te faz trabalhar até hoje com a dança? Não sei. As vezes eu me pergunto isso e eu não sei, as vezes sem dinheiro nenhum. Acho que minha vocação, meu olhar, acho que tenho um olhar generoso até pro que eu não gosto. Me dedico muito ao que eu faço, as vezes tenho uma certa preguiça mas eu vou.

#ClickOnDance

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