17/07/2017 - ENTREVISTA STEVEN HARPER


#ClickOnDance: Como a dança entrou na sua vida?

Steven Harper: O que entrou, no início, foi aquela sensação muito forte, que é de ouvir música e deixar essa música vibrar dentro do meu corpo. Eu acho que essa é a essência da dança, e é o que toca as pessoas mais profundamente, independentemente de qual “modalidade” de dança a pessoa faz. É uma sensação essencial e poderosa. É dessa forma que a dança entrou na minha vida. Adolescente, descobri que eu gostava de ir a festas e de dançar, de, simplesmente, “chacoalhar o esqueleto”. Um belo dia uma amiga me convidou pra ir numa aula de jazz com ela e assim comecei a “formalizar” essa dança dentro de uma técnica. Mas eu considero fundamental não perder a essência, que é a espontaneidade da dança e da música vibrando dentro da gente.

 

#COD: Por que você escolheu o sapateado, ou o sapateado te escolheu?

SH: Minha formação foi muito versátil. Eu comecei com aulas de jazz e daí pra aulas de moderno também. Morava em Genebra, na Suíça, na época. Em 1984 eu me mudei pra Nova Iorque para me aprofundar na dança. Não tinha uma ideia clara de o que exatamente eu queria fazer. Queria dançar. O Show Business me atraia. Isso envolve todo um leque de modalidades que incluíam sapateado, mas eu fazia aulas de ballet, de contemporâneo, de canto, de jazz e de Theater dance, um conjunto de estilos em preparação para musicais da Broadway. Então eu dançava o dia inteiro e fui descobrindo aos poucos que eu tinha mais gosto e talento no sapateado, uma certa “vantagem comparativa”. Quando você está num ambiente desse, de querer ser bailarino em Nova Iorque, é extremamente competitivo. Está competindo com os melhores de cada modalidade. Você vai fazer uma audição e tem 500 pessoas... enfim, é bem complicado, é um ambiente muito competitivo. No sapateado eu tinha uma professora excelente, eu tinha um gosto pra isso, aí eu comecei a trilhar um caminho. É lá que eu me encontrei, eu tinha mais talento pra isso mesmo, mesmo se outras modalidades de dança estão também na minha forma de dançar.

 

#COD: Você pode falar um pouco sobre a cena do sapateado no Brasil e como foi que você chegou no país?

SH: Eu cheguei no Brasil pela primeira vez em 1987, para dar um curso a convite de Carlota Portela, que tem uma escola grande aqui no Rio de Janeiro. Na época ela ia todos os anos pra Nova Iorque. A gente se encontrou lá, eu dava aulas na escola Steps Studios. Fizemos amizade e, enfim, ela me convidou pra dar um curso na escola dela. O curso durava duas semanas, mas eu acabei ficando dois meses e descobri que tinha aqui um mundo de gente fazendo sapateado, que essa modalidade existia no Brasil e que minha aulas foram bem recebidas. Eu não fui um dos primeiros aqui, mas eu cheguei numa hora boa e tinha uma demanda e uma sede pra um conhecimento mais profundo do que se fazia no Brasil na época. Então eu comecei a ir e vir toda hora e a viajar pra outras cidades do Brasil, como Fortaleza, São Paulo, etc.. Descobri que eu gostava muito desse país, da receptividade que me deram, da cultura, da música, do clima, das pessoas, da disponibilidade das pessoas a dançar, a celebrar a vida, enfim, tudo isso fez com que aos poucos eu fui me apaixonando, inclusive me apaixonando por uma brasileira. Me mudei pra cá em 1991. Desde então o sapateado cresceu muito, muito, não somente por causa do meu trabalho, mas porque o acesso a informação ficou mais fácil com a internet, as viagens para fora mais baratas e mais profissionais foram se capacitando. Eu tive a sorte de participar e de ser um dos atores centrais desse crescimento. Ganhei uma certa visibilidade porque fui fazer programas de televisão populares na época, Jô Soares, Faustão, Xuxa, Hebe, e festivais grandes como Joinville e o Passo de Artes. Viajei muito no país e me tornei uma referência no sapateado. Tendo esse reconhecimento, consegui participar de maneira ativa no crescimento do sapateado.

Hoje o tap dance está indo muito bem no Brasil. Temos um nível técnico e artístico muito alto que não deixa a desejar pra ninguém no mundo. Tem mais e mais jovens sapateadores brasileiros indo para os Estados Unidos, não somente pra participar de competições e festivais, mas sendo convidados a participar dos melhores grupos e companhias de lá. Então estou muito feliz e positivo com o rumo do sapateado no Brasil.

 

#COD: Como você vê essa relação entre o sapateado e a cultura brasileira? Você no seu trabalho pensa nessa cultura brasileira?

SH: Eu penso muito e eu uso muito. A cultura brasileira mantém viva o elo entre dança e música. As celebrações e manifestações populares são sempre acompanhadas de música e dança. Por coincidência várias dessas danças também são sapateados. Tem percussão e ritmos feitos com os pés e com o corpo em cada região do país, desde o xaxado, cocos e reisados do Nordeste, a congada mineira, o samba sapateado, diversa danças gaúchas no sul, etc. Moro no Rio de Janeiro e o samba é muito presente na minha vida. Trabalhei muitos anos na escola do Carlinhos de Jesus e também em parceria com ele em espetáculos. Tínhamos um duo, e integrei também a comissão de frente da Mangueira que ele coreografava na época. Fui aprendendo muita coisa de samba no pé, não somente com ele mas com os outros também, como João Carlos Ramos, diretor da Cia Aérea de dança, uma referência para mim. Acabei trabalhando também com escolas de samba. Coreografei carros alegóricos para o Salgueiro durante anos, inclusive um carro com 40 sapateadores, em 2011. Em 2015 coreografei, junto com minha mulher Adriana Salomão, a comissão de frente da Vai Vai, em São Paulo e fomos contratados para fazer a comissão de frente da Mangueira este ano.

O samba tem um pé no sapateado. É muito fácil adaptar os passos do samba para o sapateado, acrescentando uma dimensão percussiva. A ginga do samba, a maneira de trabalhar as pernas, os pés, tem tudo a ver ... é um terreno maravilhoso para experimentações com o sapateado americano.

 

#COD: Como é que a gente pensa o sapateado e a dança contemporânea?

SH: A dança contemporânea não é uma “técnica” definida. É, mais, digamos, um conceito que procura expressar questões diversas através do movimento. Estilisticamente, pode ir a mil direções. O desafio é encontrar uma maneira para que o sapateado possa expressar sentimentos um pouco mais profundos do que eles costumam manifestar nos musicais ou na tradição do sapateado. O tap dance é um pouco ingênuo, ou raso, em termo de profundidade de sentimentos. Tratar assuntos mais profundos é um desafio que algumas pessoas levam muito bem e outras nem tanto. O sapateado é uma dança percussiva que não carrega no seu DNA um código estético definido. Ele não precisa assim ou assado. Corporalmente, é muito ligado aos musicais e a uma certa maneira de fazer as coisas nos anos 40 e 50 do século passado, mas não precisa ser assim. Você pode adotar os braços, as posturas, os movimentos corporais que você quiser, desde que consiga fazer isso funcionar. É uma arte em aberto. Muita gente está experimentando hoje em dia, algumas com sucesso, conseguem expressar um sapateado absolutamente contemporâneo e relevante, falar “coisas que tocam”, e outras não ... mas isso é o próprio das artes. Então, eu acho que o sapateado é um terreno aberto ainda pra muitas experimentações e é muito bom que seja assim porque a gente vê que é uma arte que vai continuar evoluindo em direções diversas para muitos anos ainda.

 

#COD: Em relação ao ensino, como você se coloca diante da dança e da sua experiência como professor, como é que você se sente?

SH: São profissões distintas. A maior parte dos sapateadores, e de todos os bailarinos alias, encontra um meio de viver e de ganhar sua vida dando aulas, mas é claro que é uma profissão em si que requer uma atenção e um trabalho especifico. Não é todo bom sapateador que se torna um bom professor, e vice-versa.

Eu gosto muito de dar aulas e de encontrar a maneira de transmitir, eu gosto muito de ir na essência das coisas, eu não sou muito fã de firulas técnicas por elas mesmas, o que eu gosto é a coisa que tem um sentido e uma verdade profunda, então pra isso tem que ir no fundo das coisas. O que é o fundo das coisas no sapateado? O fato que o sapateado é uma dança, não somente uma “dança de pé”. É uma dança percussiva. Você não faz sapateado com os pés, você não começa o impulso pelos pés. O impulso que tem que sair do centro do seu corpo e se manifestar em todas as direções. Uma das consequências é o som produzido. Quando se fala em dança você já está pressupondo uma sensação interna e um movimento. Isso é muito importante, porque muita gente ensina sapateado como se fosse uma dança de pé e isso pra mim eu não tenho medo de dizer que está equivocado. O ritmo é a extensão do seu ser e o sapateado tem que transmitir isto. O segredo é de sentir o ritmo e conseguir traduzir isto em movimento. Pode sapatear adotando todos os estilos de movimento que quiser desde que seja sentido e que tenha uma verdade por trás do movimento.

 

#COD: Nas suas aulas você tem um profundo conhecimento sobre a origem do sapateado, e também com as relações dos ritmos brasileiros. Você pode falar sobre seu mundo artístico, o que você está produzindo?

SH: Ao longo dos anos, eu desenvolvi diversos trabalhos de pesquisa artística com diversos formatos e, principalmente, com diversas colaborações. Gosto muito de colaborar e de fazer coisas com outras pessoas, sapateadores ou não, e de procurar um terreno para o diálogo. Então isso me levou em diversas direções estilísticas também. Como eu falei, á uma época eu tinha um duo com Carlinhos de Jesus, e ali era uma procura por um terreno que une o samba ao sapateado. Durante esse mesmo tempo eu tinha outra colaboração, com o contrabaixista Bruce Henri, um artista extremamente versátil. A gente trabalhava em tudo que era direções musicais e cênicas. Era um desafio pra mim porque era a primeira vez que eu trabalhava sozinho com um músico, o que me forçou a me embasar muito musicalmente e a conseguir realmente manter o pulso rítmico e transmitir isso para o público. Foi uma grande escola pra mim. Depois eu tinha uma companhia com cinco bailarinos aonde a gente experimentou muito em termos de linguagem. Fiz todo um trabalho em parceria com um coreógrafo contemporâneo, o Mário Nascimento, onde procuramos desconstruir a estética tradicional do sapateado e procurar por novas possibilidades. Montamos diversos espetáculos, que ficaram uns dez anos com minha companhia.

Trabalhei com os percursionistas Robertinho Silva, Simone Soul e Carlos Negreiros, todos artistas de renome, que me ensinaram demais dentro do universos dos ritmos brasileiros. O meu trabalho hoje se chama Saguibatu, um espetáculo com sapateado, guitarra, bateria e tuba, daí o nome Saguibatu. Então são três músicos e mais dois bailarinos sapateadores, eu e minha mulher Adriana Salomão. A gente toca também percussão e percussão corporal, sapateado e dança contemporânea, é uma mescla. É um espetáculo que nos dá um imenso prazer porque os músicos são realmente de primeira linha. Eu gosto muito de ir em direção à música, sendo que eu a expresso corporalmente, criando, além de ritmos, imagens.

 

#COD: Steven por Steven

SH: Eu estou bem satisfeito com o meu percurso e com as coisas que realizei. Na minha cabeça de 30 anos atrás, eu tinha sonhos de me tornar bailarino, de viver de dança, mas não sabia se isso seria possível. Estava vivendo em Nova Iorque, naquele mundo muito competitivo, batalhando e fazendo audições todo dia, e não sabendo se ia conseguir alguma coisa, profissionalmente falando. Com o tempo eu vejo que fui muito mais longe do que eu sonhava na época, então pra mim tudo que está agora é lucro. Estou muito feliz e continuo dançando porque eu continuo curtindo horrores. É uma forma de arte que não esgota, é sempre um prazer puro. Mas, se por algum problema eu tiver que parar agora, tudo bem. A vida de um bailarino profissional é geralmente curta, mas a minha já durou muito. Estou bem feliz.

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