17/04/2017 - Ana Botafogo se reinventa ao completar 40 anos de carreira


Qual seria o melhor lugar para uma boa conversa com Ana Botafogo, o maior nome do ballet clássico brasileiro? Se você respondeu o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, acertou em cheio!

A bailarina, que completa 40 anos de carreira em 2017, conversou com o #ClickOnDance sobre sua trajetória, a importância da dança na vida das pessoas e sobre os novos desafios de sua carreira. Confira!

#ClickOnDance: Pelas entrevistas que você deu, percebemos claramente que você teve o apoio da sua mãe em quase todos os momentos da sua trajetória como bailarina. Como foi esse início?  

Ana Botafogo: Eu acho que fui muito privilegiada nesse ponto. Primeiro porque tive o apoio da minha família, desde sempre, desde pequena. A gente precisa ter o apoio da família desde cedo, porque a vida deles acaba girando em torno da nossa. Muitas vezes deixamos de viajar aos finais de semana por conta dos ensaios e, como eu era muito pequena, eles acabavam ficando comigo. Então sempre tive um apoio incondicional. Eles também eram os meus maiores críticos. Como sempre me viram dançar, sobretudo no Rio de Janeiro, se eu dançasse dez vezes no Municipal, eles vinham as dez vezes e tinham parâmetro pra dizer o que acharam melhor, qual interpretação tocou mais no dia. O público vem ver um dia ou dois, mas não vem dez.

Eu nunca tive pressão para fazer uma faculdade. Até entrei para fazer Letras – Inglês - Português, porque queria fazer tradução simultânea, mas nunca abandonei o ballet. Eu tinha um tio diplomata que morava na França e fui pra lá estudar francês, a ideia era passar 3 meses. Era época em que a comunicação era muito difícil, eu falava com meus pais no Brasil por telefone uma vez no ano, quando muito ou por carta. Hoje eu até brinco com meus pais perguntando como eles dormiam sem saber que eu tinha chegado em casa (risos).

Durante a estadia, passei numa audição e fui contratada pelo Ballet Nacional de Marseille. Foi aí que tudo mudou na minha vida.

Neste ano estou comemorando 40 anos de carreira, desde que assinei meu primeiro contrato em 1977 no Teatro Guaíra, em Curitiba. Faço 40 anos de carreira, no mesmo ano em que o Cisne Negro também comemora 40 anos. 

 

#COD: Muitos bailarinos não têm esse apoio familiar. O que você diria para quem hoje sonha com uma carreira na dança, mas sofre pressão para seguir carreiras mais convencionais?
AB:
Só é bailarino e só chega lá, quem persiste e vai atrás dos sonhos. Se eu tivesse que dar um conselho, seria: seja determinado, não desista do seu sonho porque você pode ser realmente bem sucedido na sua carreira. Obstáculos existem, não apenas opiniões contrárias, mas também obstáculos físicos, emocionais, do dia a dia, da dor da repetição. Apesar de tudo isso, quando a gente ama e tem determinação, tudo é superado. A profissão ballet tem que ter foco e força de vontade.

 

#COD: Um dos novos desafios desses 40 anos de carreira é fazer parte da curadoria do Festival de Dança de Joinville, que é conhecido internacionalmente. Como é estar nessa posição?
AB:
Acho o Festival de Dança de Joinville o mais importante das Américas em termos de tamanho. Eu estou há 8 meses trabalhando para o Festival de 2017 e está sendo um desafio. Nos últimos dois anos, tenho passado por muitos desafios, muitas trocas de olhares, da própria profissão. Desde ser Diretora do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro a ser curadora de um grande festival. Não lido apenas com o Ballet Clássico, estou lidando com um Festival que abrange todos os tipos de dança e profissionais, alunos bailarinos, professores, ensaiadores, coreógrafos, pianistas, pessoas que falam sobre dança... é uma gama muito grande. Eu estou aprendendo muito nesses primeiros meses com as duas curadoras do Festival, que são a Mônica Mion, que foi bailarina e diretora do Ballet de São Paulo, e Thereza Rocha, que também é uma pesquisadora de dança, sempre esteve envolvida com dança contemporânea e foi minha professora de filosofia na faculdade. Como eles têm uma equipe muito experiente, nós estamos lá mais como conselheiras. Trazemos nomes novos e isso dá uma dinâmica maior.

Este ano, além dos cursos práticos teremos um seminário que falará sobre a criança enquanto aprendiz e enquanto público. Nossa inovação nesta edição foi dividir a faixa etária do Ballet. É diferente dar aula para um iniciante de 5 anos, de 15 ou de 30.

 

#COD: Além do desafio com a curadoria do Festival de Dança de Joinville, você é a atual Diretora de Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Como você chegou nessa posição e o que ela trouxe para a sua carreira?
AB:
Foi uma mudança não planejada. Surgiu porque o Theatro Municipal ficou sem diretor durante um período e, logo depois, o novo presidente me pediu indicações. Indiquei vários nomes mas encontrávamos pessoas disponíveis, dada a urgência.

Muitas vezes eu disse não ao cargo, até que um dia não teve mais como. Tanto eu quanto Cecília Kerche saímos de uma reunião no Theatro como diretoras do ballet.

Nossa primeira ideia era ficar até o final do ano, o que dava uns 4 ou 5 meses, mas acabamos ficando. Até um ano e meio atrás, Cecília e eu éramos bailarinas de ficar na aula, ir aos ensaios, mas não sabíamos nada de direção. O que a gente sabia era dirigir um espetáculo, um bailarino, direção artística e nos deparamos com uma parte muito burocrática. É muita coisa envolvida para montar uma temporada, não é mais só a sala de aula. Hoje temos que pensar no palco, no figurino, nos horários da companhia, de ensaio dentro do palco, ver se tem o técnico de luz, se a cortina está aberta, se o piano está no palco. Então é uma série de coisas que acabamos nos envolvemos.

Passados quatro meses, fiquei esperando o nome do novo diretor, mas no fundo eu estava gostando, era isso que eu queria, novos desafios.

 

#COD: Você acha que o Brasil é um país maduro no apreciar da arte?
AB:
Eu não sei dizer se isso é maduro ou não. A gente tem um público no Rio de Janeiro que conhece dança tanto contemporânea quanto clássica e que está habituado a vir ao Theatro Municipal, mas ao mesmo tempo acho que a gente tem um público que ainda ignora o que é realmente a profissão do bailarino. Nesse ponto, apesar da gente ter uma divulgação através das redes sociais ou da televisão, ainda não temos um programa exclusivo sobre dança. A gente fica buscando um programa de fora e tentando dar essa visibilidade, mas acho que é um publico que ainda não sabe do esforço do bailarino e o que representa a profissão.

 

#COD: Durante muitos anos era comum ver meninas no ballet e meninos indo para o esporte. Isso se reflete como no mundo da dança? Hoje você enxerga um movimento diferente? E qual é a importância da dança para a formação de uma criança?  

AB: Acreditamos que esse é o ano em que temos um corpo de baile masculino fantástico. Como as mulheres começavam mais cedo, se desenvolviam mais, a técnica era melhor, mas isso vem mudando muito por causa do Bolshoi. Hoje em dia, eles já chegam com uma base que é primordial. Temos um grupo de rapazes excelentes.

O Bolshoi caça talentos e prepara talentos. É uma seleção muito rígida. Se uma criança aprende dança no início da infância, ela também aprende a coordenar cabeça, braços, pernas, corpo, olhar, tudo tem que ser coordenado para dar beleza, parecer natural. O ballet é fantástico para a parte neurológica, motora e social. Ballet é uma arte coletiva, e de saber ceder também, porquê isso que vai ensinar a criança para o resto da vida. Um dia ela vai liderar, outro dia ela estará no fundo da sala. O ballet não perdoa, se você quiser ser profissional, ballet é ingrato.

 

#COD: Todo mundo é apto para a dança?
AB:
Qualquer pessoa com boa saúde é apto para dançar. O ballet é uma dança de esforço e repetição, então qualquer pessoa com boa saúde é apto para dançar. Fôlego e disciplina são coisas adquiridas ao longo dos treinamentos.

 

#COB: A dança pode mudar a vida de uma pessoa?
AB:
A dança salva, a dança resgata, a dança protege, consola, fortalece... poderia dar vários exemplos não só de pessoas conhecidas como de histórias que passaram por mim, e até a minha história pessoal. Posso falar de mim. A dança sempre me acompanhou em momentos alegres e tristes e, mesmo nos piores, ela me consolou e não me deixou desistir. Eu já estive cansada da vida, mas nunca estive cansada da dança.

 

#COD: Algumas expressões artísticas são rapidamente alteradas pela evolução tecnológica, como a fotografia, o cinema e a música. Outras parecem em um limbo incerto, como a literatura, poesia. O ballet parece inabalado. Se é verdade, a que você atribui isso?
AB:
É verdade. Nós, Theatro Municipal como a Opéra de Paris, como o American Ballet Theater e tantos outros grandes teatros, são responsáveis por preservar essa tradição do ballet clássico. Então somos muitos responsáveis para transmitir à outras gerações. Agora, atribuo esse encantamento, primeiro: acho que são obras primas, músicas que passaram séculos, ballets que passam séculos, como Lago dos Cisnes. A magia da dança, o lúdico do público, acho que isso tudo ainda encanta. Até hoje as pessoas ainda se encantam de subir na ponta do pé, fazer um samba na ponta do pé. Cada vez mais eu acho que a arte tecnológica está vindo para o lado da dança. O bailarino dança com pixels e hologramas. Já fizeram uma exposição comigo na FAAP de São Paulo. Eram cerca de 10 artistas feitos em hologramas dentro de uma maquete pequena, e quando olhava pela janela, no meu caso, meu holograma estava fazendo uma coreografia do Renato Vieira que eu começava na cadeira, era um solo. E aí reconstruíram todo o cenário e falaram que o mais difícil foi fazer o holograma sentado na cadeira.
 

#COD: Nos seus 40 anos de carreira, tem alguma coisa que você ainda não fez e deseja um dia fazer?
AB:
Não é que falte, mas sempre tem alguma coisa a mais. Quando fiz minha despedida aqui no Municipal do Rio, eu sempre imaginei que ia e que vou ficar ligada com a dança, mesmo que eu saia dos palcos. Quando eu virei diretora, ainda tinha pequenas coisas criadas para mim, mas já tinha me despedido dos grandes clássicos. O ano passado já diminuí o ritmo muito. Eu estava envolvida com o Municipal e achava que precisava me envolver mais com a direção, mas confesso que me deu muita agonia. Nunca deixei de fazer aula, fiz aula diariamente com a companhia, mas deixei muito de ensaiar.

Eu tive um convite da companhia de dança Cisne Negro, que também faz 40 anos, e falei que adoraria participar, mas que não poderiam contar mais comigo como bailaria. Ainda não sei como vai ser toda minha participação, mas estarei em cena. A companhia está criando o espetáculo com direção do Jorge Takla, e coreografia de Rui Moereira e Daniele Bittencourt, então isso me encantou muito. Sempre quis trabalhar com o Jorge Takla.

#COD: Se você pudesse dar uma dica de ouro para quem quer dar os primeiros passos rumo a uma carreira na dança, qual seria?
AB:
A minha dica seria: foco, perseverança, paixão e ser verdadeiro. Tem que ter a dança verdadeira dentro de você.


Para encerrar, um pingue-pongue:

Melhor momento na dança? Quando eu estou em cena.

Uma memória ruim da dança? Meus machucados, torcer o pé.

Um espetáculo de dança inesquecível que você assistiu? Um que não tenha participado. Marcia Haydée em cena.

Qual foi o lugar mais incrível onde você dançou? Termas de Caracalla, em Roma.

Uma referência da dança? Marcia Haydée e Dalal Achcar.

Uma decepção que a dança trouxe para você? Nenhuma.

Melhor música para dançar? Tchaikovsky.

O que te faz dançar até hoje? Ter emoção para dar.

#ClickOnDance

 

Voltar