13/02/2019 - Como a dança pode ajudar no desenvolvimento infantil


Fazia uma tarde quente quando a professora Júlia de Andrade sentou-se no assoalho da sala de aula, pernas cruzadas sobre as coxas, e propôs um desafio aos alunos: “E se todo mundo girasse sentado, mas sem encostar as mãos no chão?”, disse, instantes antes de ela própria dar uma volta completa. O grupo, formado por pouco mais de dez crianças, a maioria com idades entre 4 e 5 anos, não titubeou: se esforçando como podiam, cada qual deu um giro no próprio eixo.

Sentado num banquinho (que, de tão baixinho, mal me afastava do chão), eu acompanhava tudo em silêncio. Fora parar na aula de Júlia por acaso e, de certo modo, por “interesse científico”. Minha intenção era entender o que, na prática, é a “dança educativa”, o gênero que ela trabalha em suas oficinas. Nessa modalidade, o aluno não aprende passos e coreografias predeterminadas. Sob orientação do professor, a criança cria a própria maneira de dançar. Minha curiosidade pelo assunto surgira como surge a maior parte das matérias sobre ciência e saúde: um estudo novo, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo, sugeria que esse tipo de exercício, quando ministrado a crianças pequenas, contribui para seu desenvolvimento motor.

Já há quase 20 anos, as oficinas de dança educativa acontecem duas vezes por semana no Espaço Brincar, a escola particular de educação infantil na qual eu me infiltrara. Orientadas por Júlia, as crianças pulam, engatinham, criam coreografias próprias e, vez ou outra, se trombam, com resultados que vão de risadas a lágrimas (eu, particularmente, ri bastante): “Com a dança, elas aprendem a se organizar no espaço e a respeitar o espaço dos outros”, disse Júlia, uma bailarina apaixonada por educação infantil. “Elas estão num momento em que descobrem a se expressar com o corpo. O objetivo aqui é ampliar esse repertório de movimentos.”

A ideia de que a dança contribui para o desenvolvimento das crianças já é antiga: encontra defensores ferrenhos entre educadores pelo menos desde o início do século XX. Agora, ganhou algum amparo da ciência. Segundo a pesquisadora Isabelle de Vasconcellos, da faculdade de medicina da USP, as habilidades motoras das crianças que têm acesso a atividades de dança educativa evoluem mais rapidamente. Comparadas a seus pares que não dançam, essas crianças apresentam melhores resultados em testes de coordenação motora fina (aquela relacionada à habilidade de executar tarefas com as mãos) e de equilíbrio, por exemplo.

Durante cerca de um ano, Isabelle acompanhou turmas de alunos de duas escolas públicas do Zona Oeste da capital paulista. Uma das turmas, composta de 26 estudantes, participou de aulas de dança educativa por sete meses. O outro grupo manteve a rotina normal de aulas.

O objetivo de Isabelle era pôr à prova os benefícios dessa atividade para os pequenos. A abordagem é ligeiramente diferente das aulas de dança convencional, como balé ou jazz. Criada pelo eslovaco Rudolf Laban, a dança educativa pretende que as crianças explorem diferentes maneiras de se movimentar: “Não existe a intenção de que a criança consiga reproduzir os movimentos de um bailarino. Mas que ela descubra o que pode fazer com o corpo”, me explicou Isabelle.

Arquiteto, Laban se tornou um dos maiores teóricos da dança no século XX. Seu interesse pela área surgiu ao observar mudanças comportamentais na sociedade europeia: “Com a industrialização, as pessoas passaram a ter menos oportunidades de se mover ao ar livre. Laban acreditava que isso lhes faria mal, inclusive para as crianças. E passou a estudar a dinâmica do movimento “, contou a pesquisadora.

A preocupação ainda é atual. Estudos feitos no Brasil estimam que cerca de 24% das crianças brasileiras chegam ao ensino fundamental — quando têm por volta de 6 ou 7 anos de idade — com algum grau de atraso no desenvolvimento motor. As razões para isso não são de todo conhecidas. Mas supõe-se que seja o resultado de comportamentos que, hoje, são comuns nessa fase da vida: “As crianças passam muito tempo sentadas diante de telas. E já não têm muitos estímulos motores” teorizou Isabelle. “Isso faz com que uma criança de 6 anos, em alguns casos, tenha habilidades esperadas de uma criança de 4”.

Foi esse o quadro que ela encontrou nas escolas em que realizou seu experimento. Antes de participar das aulas de dança, os dois grupos de estudantes passaram por uma avalição de suas habilidades motoras. Os testes foram feitos por profissionais que não sabiam se o aluno dançaria ou não. Embora a maioria tivesse pouco mais de 6 anos de idade cronológica, suas habilidades motoras eram comparáveis às de crianças um ano mais jovens.

Seis meses depois da intervenção, o quadro mudara. O grupo que dançara tinha habilidades, em média, compatíveis com as de crianças com 7 anos (a idade cronológica da maioria àquela altura). Algumas apresentaram desempenho esperado de meninos e meninas com 8 anos. O grupo que não passara pela intervenção progredira, mas bem menos: tinham 7 anos, e desempenho próprio de crianças com 6.

Isabelle esclareceu que não se sabe se outras modalidades de dança trariam resultados diferentes. A dança educativa foi escolhida para o estudo porque, segundo ela, é a variante mais comumente escolhida pelas escolas naquelas poucas ocasiões em que a atividade faz parte das atividades regulares dos alunos. Hoje, segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o ensino básico brasileiro deve incluir o trabalho com diversas expressões artísticas. A dança entre elas. Mas, me explicou a pesquisadora, dificilmente os colégios públicos conseguem manter essas atividades de forma regular: “É mais comum que as escolas contem com profissionais formados em artes visuais. É difícil encontrar o profissional qualificado para dar essa aula”, disse.

Na escola que visitei, quando a aula da bailarina Júlia chegou ao fim, a turma estava eufórica. Talvez a ciência ainda precise trabalhar mais para provar, sem sombra de dúvida, que as conclusões de Isabelle estão corretas. Por ora, a julgar pela aula daquela tarde, uma coisa é clara:  se não melhora o desempenho motor das crianças, a dança, ao menos, faz bem ao humor.

Fonte: https://epoca.globo.com/como-danca-pode-ajudar-no-desenvolvimento-infantil-23447582 

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