05/07/2019 - Bate papo com Aline Bernardi


Dança e poesia se encontram na trajetória de Aline Bernardi, recentemente a bailarina lançou um livro de poesias escritas em movimento e solo de dança. A sua grande sensibilidade nos fez querer saber mais sobre sua trajetória, influências, inspirações.

Vamos às perguntas? :)

  • Você usa a improvisação em seus trabalhos? Você pode me dizer sobre como você utiliza a improvisação na criação da coreografia?

A improvisação é um eixo de investigação das minhas criações, tanto na pesquisa corporal quanto no encaminhamento dramatúrgico dos meus trabalhos em dança/performance/teatro. Na sala de ensaio uso a improvisação na preparação corporal e em jogos de composição coreográfica, e no palco a improvisação é presente dentro de um roteiro coreográfico. Sou praticante e professora de Contato Improvisação há 10 anos e essa prática influencia bastante o meu modo de fazer e pensar a dança.

 

  • Quais foram as principais influências que você experimentou que mudaram como você vê e pratica a improvisação?

Como citei acima, a prática do Contato Improvisação é um importante pilar da formação do meu corpo como bailarina e professora de dança. O Movimento Autêntico é uma outra relevante influência na minha trajetória. Mais recentemente o butô tem sido um espaço de muitas descobertas para o meu corpo, reforçando a perspectiva do trabalho com improvisação em cena.

  • No seu entender que idéias fundamentais devem ser discutidas, a priori, num desenvolvimento de um projeto, e como elas levam a outros conjuntos de idéias?

O processo de criação é composto, a meu ver, de muitas dobras e curvas e é muito importante estar disponível para os constantes ciclo de morte-vida-morte-vida de uma investigação. No meu caminhar e na minha labuta artística e pedagógica compreendo que um projeto está pedindo para nascer e ser investigado quando algumas perguntas passam a ser insistentes em/no meu corpo. O tema da queda e a relação entre as intensidades do corpo e da palavra são recorrentes no meu trabalho.

  • Sua pesquisa para um espetáculo costuma ser indutiva ou dedutiva?

Minha pesquisa não é nem indutiva nem dedutiva, pois não me interessa encontrar verdades no processo de criação. Poderia dizer que minha pesquisa é circular e/ou espiralada. A Fita de Moebius apresenta ao espaço um corpo topográfico onde o espaço de dentro se curva e se transforma em espaço de fora e o de fora se curva para o de dentro. É esse o fio condutor do modo de pensar/fazer da minha pesquisa em dança.

  • Qual a Origem dos movimentos que traduzem seus temas no palco? Como você transforma suas ideias, textos ou temas em movimentos?

O corpo é um canal de passagem para muitos fluxos: fluxo sanguineo, fluxo de ar, fluxo de muitos líquidos que circulam pelo corpo. Esse trânsito de fluxos geram ritmos, e temos três ritmos básicos no corpo: o cardíaco, o respiratório e o crânio sacro (do cérebro). A combinação desses ritmos criam pulsações. Pulsação é movimento. As sinapses também são fluxos, ou seja, pensamento é uma pulsação, é movimento. O encontro entre os corpos e os espaços multiplicam as possibilidades rítmicas. Os temas de um processo de criação vão ganhando contorno a partir do momento que apuro a minha escuta para essa multiplicidade rítmica que já está no espaço. A partir dessa escuta, o trabalho é o de ir fazendo escolhas através das experimentações.

  • Qual a importância e o peso da cenografia, da iluminação, do som, do figurino, da tecnologia de toda equipe na elaboração do seu trabalho?

A dramaturgia de movimento nos meus trabalhos caminha de mãos dadas com a construção do figurino e a dramaturgia musical. Para o Solo Decopulagem, a trilha sonora foi construída em salas de ensaio junto com o compositor. Uma investigação da pulsação da música buscar inspiração no surgimento do gesto, uma escuta tênue e sutil do nascimento do ritmo no espetáculo. O figurino e os objetos de cena em Decopulagem acompanharam a concepção de um corpo-móbile, que é uma chave da criação tanto do Solo quanto do Livro Performance. A iluminação ainda é algo não prioritário no meu processo de trabalho, mas desejo me aproximar desse aspecto tão revelador de imagens. A cenografia para mim é uma relação com os diferentes espaços cênicos: gosto de criar dramaturgias que sejam adaptáveis aos múltiplos espaços: galerias, caixa preta, praças públicas, casarões antigos. A relação com esses ambientes diferentes me provoca muito interesse e desperta o estudo com a ativação do estado cênico e as muitas possibilidades que cada espaço oferece para o diálogo ou interação com o público/expectador

  • Além de ser coreógrafa, você também atua em outras áreas da arte e da educação? Pode falar um pouco delas?

Atuo como coreógrafa dos meus trabalhos autorais. Como preparadora corporal e diretora de movimento de espetáculos de teatro, videodanças e shows. Também sou professora de dança do Colégio Pedro II, uma escola pública da rede federal.

  • O sentimento ou sensação que sente ao ver suas ideias traduzidas em movimentos...

É um sentimento de deixar o corpo aflorar seus aprendizados, como se a minha presença no mundo ganhasse uma nova pétala. E também a compreensão de que tudo é passageiro: essa nova pétala vai aparecer, espalhar sua cor e seu perfume e depois vai retornar ao solo, vai morrer e dar espaço para o nascimento de outras. 

  • Como você acha que as pessoas deveriam descrever/entender sua dança?

Não tenho a pretensão nem a motivação de querer decidir o como as pessoas "entenderiam" a minha dança. Me abro para através da dança possibilitar/comunicar caminhos de ENCONTRO com as pessoas e assim aprender com os olhares e a sensibilidade delas. É fantástico quando eu me surpreendo com a "leitura" de alguém sobre um trabalho meu, quando alguém me conta que viu ou sentiu algo que eu em momento algum pensei ou vivenciei no processo de criação. Isso é fantástico quando acontece.

  • Pensando em tudo que está acontecendo no país, qual você acha que é a função dos artistas num momento de crise?

No momento de crise política a função do artista é reforçada em seu propósito de semear a esperança, na intenção de alargar o campo de visão da perspectiva de construção de futuro. Denunciar as ações que restrigem o acesso às condições básicas de vida é um caminho pulsante e necessário do processo formativo e afetivo das manifestações artísticas. Mas considero urgente que os artistas, em momentos de crise e estreitamentos de visão de mundo, se ponha no exercício de a partir das denúncias e reivindicações feitas aponte proposições para o vislumbre esperançoso.

Para encerrar, um pingue-pongue:

Melhor momento na dança?

o encontro com o público

Uma memória ruim da dança?

quando não danço

Melhor momento na vida?

quando um bebê me convida a olhar o mundo

Um espetáculo de dança inesquecível que você assistiu? 

assisto aos espetáculos de dança com o olhar de quem quer descobrir um mundo novo

Qual foi o lugar mais incrível onde você trabalhou?

cada lugar é especial na sua singularidade e me traz um aprendizado

Uma referência da dança?

Kazuo Ohno e Lisa Nelson

Uma decepção que a dança trouxe para você?

decepção não combina com dança

Melhor música para dançar?

aquela que faz meu corpo vibrar e querer encontrar torções na relação com o espaço

O que te faz trabalhar até hoje com a dança?

o desafio de não saber para onde e como caminhar, a alegria de ter a dança como um chão para a construção de encontros que me potencializam. E isso me renova de esperança e força.

Obrigada Aline!

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